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Bangladesh: dois anos depois da tragédia do Rana Plaza, terceirizados da indústria global da moda ainda lutam por direitos

 

Lágrimas, raiva, um minuto de silêncio e protesto nas redes sociais marcaram hoje o segundo ano da tragédia do Rana Plaza, edifício de oito andares que desabou nas proximidades de Dhaka, capital de Bangladesh, em 2013, matando 1.129 pessoas e deixando outras 135 desaparecidas nos escombros, além de mais de dois mil feridos.

O desabamento do complexo de fábricas de confecção escancarou as condições precárias e degradantes enfrentadas pelos trabalhadores terceirizados da indústria global da moda nos países em desenvolvimento e deu início a um movimento para exigir respeito aos direitos humanos e padrões éticos, seguros e sustentáveis num dos setores mais lucrativos da economia mundial.

Durante as homenagens aos mortos, a dor e o sofrimento deram lugar à revolta diante da demora de algumas empresas internacionais em doar os valores acordados para o fundo de auxílio às vítimas.

Segundo o jornal britânico The Guardian, grupos de direitos dos trabalhadores calculam que o valor total das indenizações deveria ser de 30 milhões de dólares, cerca de 90 milhões de reais, mas dois anos depois da tragédia as doações não passaram de 70% desse valor.

“Isso é quanto eles pensam que vale a minha vida”, disse ao jornal norte-americano The Wall Street Journal a costureira Bethi Begum, de 20 anos, que recebeu 95 mil takas de indenização, cerca de 3,7 mil reais.

Ela trabalhava no sétimo andar do Rana Plaza no momento do desabamento e sofreu várias fraturas na perna direita que a impediram de continuar a operar a máquina de costura.

Desde que se recuperou das duas cirurgias a que foi submetida, a jovem procurou emprego como supervisora de qualidade, mas sem sucesso. “Tão logo os gerentes ouvem que eu estive no Rana Plaza, eles me mandam embora”, conta. “Eles pensam que eu sou defeituosa, fisicamente e mentalmente”.

Os operários do Rana Plaza, a maioria mulheres, produziam peças para marcas e lojas famosas, como a britânica Primark, a francesa Auchan, a espanhola Mango e a italiana Benetton, que na semana passada anunciou uma contribuição de 1,1 milhão de dólares, ou 3,3 milhões de reais, para o fundo de compensação, administrado por um comitê formado pela Organização Internacional do Trabalho (OIT) e por representantes dos Estados Unidos, União Europeia, governo de Bangladesh, empresas internacionais, confecções locais e sindicatos.

“Embora não haja uma verdadeira reparação para a trágica perda de vidas, esperamos que este mecanismo sólido e claro de cálculo da compensação possa ser usado de forma mais ampla”, disse Marco Airoldi, CEO do Grupo Benetton, ao  Wall Street Journal.

Não é o que esperam os movimentos sociais em defesa dos trabalhadores, que cobram da Benetton 5 milhões dólares em indenização, cerca de 15 milhões de reais. “Infelizmente, as verdadeiras cores da Benetton são agora reveladas”, disse Ineke Zeldenrust, do Clean Clothes Campaign.


Melhorias

Composta por quase cinco mil empresas, a indústria de confecção é uma das mais importantes de Bangladesh, responsável por 80% das divisas do país, que só perde para a China como maior fornecedor mundial do setor. No ano passado, o faturamento chegou a 24 bilhões de dólares, ou 72 bilhões de reais, três a mais que em 2013, e a meta é atingir 50 bilhões em 2020, quase 150 bilhões de reais, de acordo com a associação local de exportadores.

O desafio das autoridades locais e dos organismos internacionais é tornar esse crescimento sustentável e dentro dos padrões de respects aos direitos humanos.

Em julho de 2013, três meses depois do desabamento, a OIT criou com a União Europeia, os Estados Unidos e as autoridades bengalis o Sustainability Compact, um programa de cooperação para promover melhorias na indústria do vestuário em Bangladesh.

Segundo a OIT, desde a criação do programa a lei trabalhista do país incorporou cláusulas que permitem a formação de associações por trabalhadores e a negociação coletiva, o que resultou na criação de 300 novos sindicatos somente no setor do vestuário.

Cerca de 250 inspetores de segurança no trabalho foram treinados no país e 2.500 fábricas foram inspecionadas. “Ações remediadoras foram adotadas na medida em que as deficiências foram identificadas e, de uma forma geral, as condições de segurança e de saúde dos trabalhadores melhoraram”, afirmou a Comissão Europeia em comunicado.

Redes Sociais

Mas é na conscientização do consumidor que está a maior arma para evitar novas tragédias como a do Rana Plaza. Nas redes sociais, o dia foi de lembrar às pessoas das consequências de suas escolhas na hora das compras e da importância de coletar informações sobre as mercadorias e os processos de produção.

Pelo segundo ano consecutivo, ativistas pela ética e sustentabilidade na moda promoveram ações em 71 países, inclusive no Brasil, coordenados pela organização global Fashion Revolution.

Com a campanha #WhoMadeMyClothes, os organizadores querem que o consumidor pense sobre todos que participam da cadeia de produção de suas roupas, desde o designer e o produtor da matéria prima até o vendedor, passando pelo embalador e pelo transportador.

De acordo com uma pesquisa da Deloitte citada no site da versão australiana da revista Marie Claire, 2/3 das companhias de moda não trabalham a sustentabilidade nas suas práticas de negócio e, em países como Austrália, um dos mais sustentáveis do mundo, 91% das companhias não sabem a fonte do algodão que usam, enquanto 75% das marcas não identificam de onde vem o tecido usados em suas roupas.

Por Antônio Martins Neto
Editor do Blog Mundo Possível

Fotos: IndustriALL Union

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