Meio Ambiente

Reuso da água pela indústria ainda é uma realidade distante em boa parte do Brasil

RECIFE – Seca no Nordeste. Seca no Sudeste. Se a água será um bem escasso no futuro, como prevêem os especialistas, esse futuro chegou rápido ao Brasil. Lenta é a adaptação do País a essa realidade. Poucos estados da Federação cobram pela água retirada de poços e de rios, um recurso que pertence à União. Já a indústria, responsável por 70% do consumo de água no território nacional, despeja o resíduo líquido de sua produção na natureza em vez de tratá-lo e reutilizá-lo. Segundo o engenheiro químico Luiz Fernando Matusaki, a água ainda é muito barata no Brasil, o que torna o tratamento de reuso caro e economicamente inviável. No Recife para um curso sobre tecnologias de tratamento de efluentes, o consultor conversou com o Blog Mundo Possível.

O Brasil dispõe de boas tecnologias para o tratamento de efluentes?

O Brasil tem todas as tecnologias mais modernas disponíveis, mas não tem poder econômico para implantá-las. Infelizmente, o Brasil ainda é um país em desenvolvimento e a situação econômica pesa. As tecnologias que eu mostrei no curso são as mesmas tecnologias usadas nos Estados Unidos e na Europa, tecnologias de ponta, mas só algumas empresas têm poder econômico para implantá-las. As outras ainda estão engatinhando.

Isso acontece na América Latina como um todo?

Não. Mesmo no Brasil tem diferença. Em São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais e Rio Grande do Sul, as empresa gastam muito mais com o meio ambiente. Subindo para o Centro-Oeste, Norte e Nordeste, ainda há carências.

E Pernambuco?

Pernambuco está num estágio inicial. O estado me lembra muito São Paulo de 25 anos atrás, quando começaram as cobranças pelos órgãos de controle. Se as restrições apertam no Sul e Sudeste, as empresas se mudam para as regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste, onde os salários são mais baixos e há menos restrição ambiental. Pernambuco tem mudado um pouco a postura nos últimos anos, com grandes empresas implantando tratamentos sofisticados. Mas também convive com o outro lado, com muita empresa implantando sistemas só para mostrar que tem, mas sem funcionar. Infelizmente, ainda é a realidade do estado.

Até que ponto esses tratamentos implantados no Brasil visam o reaproveitamento dos resíduos líquidos?

No Sul e Sudeste do Brasil, o tratamento feito em grandes empresas já visa o reuso. Com a falta de água e com o alto preço para coletar e despejar a água usada na rede coletora, ou mesmo em rio, por conta do pagamento de outorga, os projetos de reuso nessas regiões têm uma viabilidade econômica mais fácil. Aqui em Pernambuco, a mentalidade é tratar para atender a legislação ambiental e lançar no rio.

Ou seja, o resíduo líquido não é visto como recurso ou como riqueza?

Não. Porque se tem a ideia falsa de que a água de reuso é barata. Não é barata. Você gasta dinheiro, produto químico, mão-de-obras e energia elétrica. Implantar uma tecnologia de tratamento de efluente para reuso da água só é viável quando você não tem água ou se você paga muito caro pela água e pelo esgoto. Se você não paga nada pela água, porque é um recurso abundante, e não paga nada para despejar esgoto no rio, por que pagar pelo reuso? Uma estação voltada para reuso sai mais cara aqui no estado do que abrir um poço e lançar o esgoto no rio.

O futuro aponta para que direção?

Com a escassez, a água vai ficar mais cara. Ela vai ser subsidiada para a população, mas vai ficar mais cara para a indústria. Isso vai viabilizar cada vez mais o sistema de reuso.

Cada gota vai ser reutilizada?

Cada gota é importante. Há trinta anos, a água era abundante e não era cara. Hoje, o lema é não gerar para não tratar. Quando a União começar a cobrar a coleta da água em poço e em rio, e também o lançamento do esgoto tratado, quando doer no bolso do empresário, aí os projetos de tratamento visando o reuso vão ser viáveis.

Por Antônio Martins Neto

Editor do Blog Mundo Possível

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