Economia

Secretário-geral da Rio+20, Sha Zukang, defende a união dos emergentes para a criação de “economias verdes”

Em entrevista à jornalista Verena Fornetti publicada hoje na Folha de S. Paulo, o secretário-geral da Rio+20, o chinês Sha Zukang, convoca os países emergentes a se unirem para criar “economias verdes”, que, segundo a Organização das Nações Unidas, deve gerar de 15 milhões a 60 milhões de empregos nos próximos 20 anos, conforme post publicado aqui no Blog Mundo Possível.

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Emergentes têm de se unir para criar ‘economias verdes’

CHINÊS QUE É SECRETÁRIO-GERAL DA CÚPULA DIZ QUE DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL PODE SER ALCANÇADO DE VÁRIAS MODOS E GERAR EMPREGO

VERENA FORNETTI
DE NOVA YORK

A uma semana e meia da Rio+20, conferência das Nações Unidas que pretende definir o rumo das políticas de desenvolvimento sustentável, os países ainda divergem sobre as ações práticas que poderão ser adotadas e sobre a origem do dinheiro necessário para implementá-las.

Para financiar a transição para a economia verde, o secretário-geral da conferência, Sha Zukang, defende que os países emergentes se unam. Confira a entrevista.

Folha – Os países que participarão da Rio+20 estão dispostos a definir metas de desenvolvimento sustentável?

Sha Zukang – Observamos um amplo apoio e entusiasmo em relação às metas, mas os países têm visões diferentes sobre o que deve ou não ser incluído, bem como sobre o processo formal de como e quando os objetivos podem ser concluídos e acordados.

Alguns países gostariam de ver as metas aprovadas no Rio, enquanto para outros a Rio +20 é um ponto de partida. Acredito que os Estados se unirão em torno desses objetivos de desenvolvimento sustentável no Rio, embora alguns detalhes tenham de ser resolvidos depois, para vigorar a partir de 2015.

O financiamento para que países possam implementar políticas de desenvolvimento sustentável é tema de disputas. De onde o dinheiro virá?

A assistência oficial ao desenvolvimento por parte dos doadores tradicionais [países ricos] mais do que duplicou desde 2000, atingindo US$ 129 bilhões em 2010.

No entanto, esse total é inferior à metade do total necessário para cumprir o compromisso, assumido no passado, de atingir 0,7% do PIB dos doadores tradicionais. A Rio+20 vai enfatizar a qualidade e o impacto da ajuda, engajando doadores não tradicionais e fortalecendo a cooperação Sul-Sul [entre países em desenvolvimento], bem como incentivando parcerias com o setor privado.

Os países em desenvolvimento terão de superar uma série de obstáculos para aproveitar ao máximo as oportunidades que uma economia verde pode oferecer. Será necessário aumento do apoio da comunidade internacional em termos de capacitação, transferência de tecnologia, financiamento e domínio técnico.

A oposição entre emergentes e ricos em relação às fontes de financiamento continua sendo a mesma?

Existem diferenças, mas no geral as negociações foram conduzidas de forma positiva por todos os países e grupos. Em relação aos países desenvolvidos, espera-se que cumpram as suas promessas de ajuda ao desenvolvimento e de que avancem mais rapidamente para mudar padrões de consumo insustentáveis.

Já os países em desenvolvimento precisam evitar o modelo de crescimento convencional, baseado no uso intensivo de recursos.

Alguns criticam a Rio+20, dizendo que terá pouca ambição ou pouco foco no ambiente. Como o sr. responde?

Há muita discussão sobre as questões ambientais no processo de preparação, bem como no documento final. No entanto, é uma conferência sobre desenvolvimento sustentável, e não trata o ambiente de forma isolada. Há o lado econômico e social.

Quanto ao nível de ambição da conferência, eu continuo otimista. Estou confiante de que as delegações chegarão a um acordo orientado para ações práticas, ancorado nos compromissos políticos dos líderes mundiais.

Um tema chave da Rio+20 é a economia verde, mas não há consenso sobre o conceito.

A economia verde inclui baixo carbono, mas vai além. Economias verdes têm de ser consideradas no contexto mais amplo do desenvolvimento sustentável. Esforços para erradicar a pobreza são ferramentas para isso.

É importante que cada país tenha espaço político para definir e perseguir o seu próprio caminho para uma economia verde. Mas há coisas que nós, como comunidade internacional, precisamos fazer juntos para nos colocar no caminho do desenvolvimento sustentável.

Economias verdes podem proporcionar muitos benefícios. Implementadas corretamente e acompanhadas pelas políticas sociais apropriadas, uma economia verde poderia proporcionar empregos decentes para as pessoas de diferentes níveis de renda e habilidade, principalmente para os pobres e desempregados. E as economias verdes definitivamente exigem adoção de padrões mais sustentáveis de produção e consumo.

Durante as negociações, há consenso de que as economias verdes não devem criar barreiras comerciais ou condicionalidade da ajuda.

Existe uma chance de que a conferência vá aprovar a criação de uma nova agência da ONU para gerenciar o desenvolvimento sustentável?

O quadro institucional para o desenvolvimento sustentável é um dos dois temas-chave da Rio+20, e de fato é um tema crítico. Precisamos construir mecanismos mais fortes para a implementação de iniciativas de desenvolvimento sustentável em todos os níveis. E há um amplo apoio para isso. Como fazê-lo, no entanto, está nas mãos dos Estados-membros.

A criação de um Fórum Global ou de um Conselho de Desenvolvimento Sustentável, juntamente com as opções de reforçar a Comissão de Desenvolvimento Sustentável e do Conselho Econômico e Social (Ecosoc), estão sendo discutidas, assim como o reforço do Pnuma (Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente) como núcleo do pilar ambiental.

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