Economia

Crise que poderá levar à extinção de bilhões de vidas deve começar em 2018, prevê ambientalista

A crise econômica de 2008 foi prevista com três anos de antecedência pelo ambientalista australiano Paul Gilding. “Passei anos aflito com o estado do mundo, invadido por um desespero tremendo, até me dar conta de que essa atitude não ajudaria em nada”, diz o ex-chefe do Greenpeace Internacional, atualmente consultor de empresas e governos mundo afora. No ano passado, ele lançou o livro The Great Disruption (A Grande Ruptura, ainda não publicado no Brasil), no qual afirma que o uso excessivo de recursos provocará uma crise que poderá levar à extinção de bilhões de vida na Terra. E essa crise começa em 2018, na estimativa mais otimista de Gilding. O ambientalista deu entrevista à National Geographic Brasil, publicada na edição deste mês da revista. Veja abaixo alguns trechos selecionado pelo Blog Mundo Possível.

É chocante em seu livro a ideia de que estamos muito próximos de uma trágica extinção da vida devido ao uso excessivo dos recursos. Você estima que essa crise possa começar já em 2018.
É a data que sempre menciono, mas não se trata de uma previsão exata. Também costumo dizer que, em muitos aspectos, a crise já acontece ao nosso redor. E há outra coisa: 2018 é a minha melhor estimativa do momento em que vamos despertar, ou seja, do instante em que vamos nos dar conta da situação e aceitar que já estamos em meio a um período de adversidade extrema. Um exemplo do que está acontecendo é a Primavera Árabe, que é um desdobramento positivo, mas também dramático, em parte resultado da alta no preço dos alimentos. Já estamos presenciando os impactos políticos e sociais do esgotamento do sistema.

Você também afirma que, nesse processo, bilhões de vidas serão perdidas. Como imagina que isso vá ocorrer?
Ao olhar para a complexidade do sistema econômico global, buscamos exemplos de áreas em que essa integração pode ser problemática. Uma questão urgente é a da escassez de comida, e os conflitos gerados pela falta de água – pois os alimentos dependem dela. Quando falamos de guerras por causa da água, na verdade estamos nos referindo aos conflitos em torno da capacidade de fornecimento ou produção de comida. Para mim, o tema dos alimentos é chave, pois nele confluem todas as outras diversas questões relativas aos limites dos recursos e aos impactos ecológicos. Por isso, tanto no caso do preço do petróleo e do suprimento de energia como no das mudanças dos padrões climáticos, o que se nota é que tudo está interconectado. Na economia globalizada, nos empenhamos tanto para reduzir o preço dos alimentos e torná-los commodities que chegamos ao ponto de prejudicar nossa capacidade de produzir, sobretudo devido à degradação do solo e ao esgotamento dos aquíferos. Em escala global, como se pode ver no meu livro, uma das conclusões incisivas é que o impacto econômico e humano vai ser bem mais evidente que o trágico prejuízo da biodiversidade.

A perda de vidas humanas é inevitável?
Sim, pois não estamos tomando as medidas necessárias. Secas na Amazônia e inundações no Paquistão, entre outros eventos, na verdade são provocados ou exacerbados por alterações na atmosfera desencadeadas por emissões que vêm se acumulando há muitas décadas. O mesmo se aplica ao esgotamento dos aquíferos, ao desmatamento, às alterações nos cursos d’água e assim por diante. Todos esses impactos resultam de muitos anos de alteração do sistema biológico e, portanto, uma ação corretiva também levará várias décadas antes que comece a dar resultados. Ou seja, precisamos nos preparar para enfrentar as consequências e ao mesmo tempo atacar as causas. Por esse motivo, parece-me tarde demais para impedir a crise que se aproxima.

E como lida com isso em sua vida pessoal? Imagino que você também tenha filhos. Como enfrentar esse fantasma?
Passei vários anos aflito com o estado do mundo até o momento em que se tornou evidente que esse processo todo era inevitável, o que ocorreu por volta de 2005. Antes, me sentia invadido por um desespero tremendo, e por sentimentos de futilidade e de raiva. Mas pensei: tudo bem, mas essa atitude não vai servir para nada, além de tornar miserável a minha vida. Por isso, o único tipo de reação ao mesmo tempo racional e emocional é aceitar a realidade. Para confiarmos em uma virada que permita superar a crise e seguir adiante, precisamos de uma visão esperançosa da humanidade. Reconheci que adotar um olhar positivo seria uma espécie de otimismo pragmático diante da crise que só tende a piorar. Essa é agora a minha posição. E acho que não se trata de esperança infundada, já que me baseio na história, na ciência e em análises de viabilidade econômica.

Clique aqui para ler a íntegra da entrevista.

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