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Relatório da ONU calcula pegadas ecológicas da Copa da África do Sul e faz recomendações ao Brasil

A menos de dois anos da Copa de Mundo de 2014 e em meio ao planejamento dos jogos Olímpicos de 2016, o Programa Ambiental das Nações Unidas (UNEP) lançou um relatório sobre o desempenho ambiental da África do Sul durante o mundial da FIFA de 2010, com destaque para os sucessos e as lições que devem ser aprendidas para garantir o êxito de ambos os eventos no Brasil (clique aqui para acessar o documento na íntegra, em inglês).

Da construção dos estádios até o final da Copa de 2010, a África do Sul emitiu o equivalente a 1,65 milhão de toneladas de gás carbônico (CO2), bem abaixo dos 2,7 milhões projetados inicialmente pelos organizadores locais do evento. Projeção da consultoria Personal CO2 Zero, de São Paulo, aponta para 14 milhões de toneladas a quantidade de CO2 que deve ser lançada na atmosfera durante a preparação e a execução da Copa do Mundo de 2014. É cerca de 0,8% do total anual emitido pelo país.

Vale lembrar que o mundial da África do Sul foi o primeiro após a FIFA firmar compromissos para reduzir os danos ambientais de seus eventos esportivos, com o lançamento do Green Goal, programa iniciado pelo Comitê Organizador da Copa da Alemanha, em 2006, e aprimorado pela entidade.

Entre as ações destacadas no relatório, está o uso de material de demolição na construção dos estádios, a implantação de sistema de eficiencia energética, com monitoramento da rede e uso de painéis solares em vias públicas, a reutillização de água nos estádios e o plantio de 350 mil mudas em todo o país.

O documento também cita como sucesso os investimentos em transporte público e ciclovias, além do programa de educação ambiental para jovens, em paralelo à implantação de um sistema de separação de lixo em áreas públicas.

“Talvez a mais importante conclusão dessa avaliação é que a África do Sul poderia ter alcançado mais se as medidas tivessem sido adotadas mais cedo e não tão tarde”, afirmou Achim Steiner, sub secretário geral da ONU e diretor executivo do UNEP.

Segundo ele, o país tinha potencial para perseguir metas mais audaciosas, a ponto de tonar o evento de fato verde, com a sustentabilidade como foco desde a fase de planejamento.

O objetivo inicial do organizadores locais do mundial da África do Sul era fazer um evento com impacto ambiental zero, com a adoção de medidas para reduzir a emissão de gases poluentes e da compensação ambiental por meio do plantio de mudas. Mas a falta de recursos exigiu que fossem traçadas metas mais realistas.

Só a emissão de gases com o transporte aéreo internacional de delegações e torcedores foi estimada no equivalente a 1,7 milhão de toneladas de CO2, quase 68% do total de emissões de todo o evento. As medidas ambientais adotadas pelo organizadores locais reduziram as emissões para o equivalente a 1,16 milhão de toneladas de CO2.

Plano de Negócios

O programa ambiental da Copa de 2010 foi um trabalho conjunto das nove cidades que sediaram o evento. Cada sede apresentou um plano de negócio detalhando como iria atingir os padrões mínimos definidos para seis áreas: transporte, energia, lixo, água, biodiversidade e turismo.

As cidades tiveram que apresentar soluções para o gerenciamento dos resíduos, o uso do transporte público e não motorizado, a educação para a reciclagem e o descarte do lixo, o uso eficiente da água e a promoção e o aprimoramento do turismo responsável.

“O objetivo do programa foi proteger e aprimorar os ativos ambientais da África do Sul e deixar um legado positivo após a Copa”, disse Steiner.

O relatório também fez uma série de recomendações para melhorar a efiência ambiental dos futuros eventos esportivos de grande porte, como a Copa do Mundo de 2014 no Brasil. Algumas das principais conclusões e recomendações são:

As diretrizes ambientais, inclusive para as cidades-sede, devem ser claras e legalmente protegidas . Exemplos que já deram certo devem ser seguidos sem negociação, medidos e contar com o respaldo da lei.

A FIFA deve considerar compensação de suas pegadas de carbono e incentivar os seus parceiros a fazer o mesmo.

É essencial que todas as partes interessadas na sustentabilidade do evento expressem tal compromisso em documento divulgado ao público.

A comissão organizadora deve alocar mais recursos para iniciativas sustentáveis e explorar o quanto antes as oportunidades de financiamento para evitar situações em que os programas planejados não venham a ser implementados.

A ausência de dados ambientais na África do Sul tornou difícil avaliar o impacto das iniciativas sustentáveis. A geração de dados ambientais, portanto, é importante para o desempenho de benchmarking.

Por Antônio Martins Neto

Editor do Blog Mundo Possível

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